Professor Dimy
Antes do professor: a aposta que mudou minha vida

Há viagens que começam com um mapa, uma data cuidadosamente escolhida e uma mala preparada com antecedência. A minha começou com uma provocação entre dois amigos.
—Você não tem coragem de ir para Londres comigo —disse meu melhor amigo em um dia qualquer.
Aceitei o desafio.
Uma viagem que deveria ser compartilhada
A ideia era que viajássemos juntos. No entanto, quando chegou o momento, por razões que prefiro não contar, meu amigo decidiu não ir. Aquilo afetou profundamente nossa amizade e transformou uma aventura compartilhada em uma viagem que eu teria de enfrentar sozinho.
Eu poderia ter desistido. Londres nunca havia sido um projeto exclusivamente meu, mas algo dentro de mim já havia começado a se mover. Talvez fosse orgulho, curiosidade ou a necessidade de provar a mim mesmo que eu era capaz.
Decidi continuar.
Vendi a única coisa de valor que tinha: minha moto. Com aquele dinheiro, comprei uma passagem aberta para seis meses, com a volta passando pela Grécia. Se algo desse errado, eu poderia retornar por terras que já conhecia e onde encontraria alguém disposto a me ajudar.
Aquele era meu plano de segurança. Minha pequena porta de volta.
Os seis meses acabaram se transformando em quase três anos.
17 de abril de 1997
Cheguei a Londres em 17 de abril de 1997. Tinha 24 anos e faltavam poucas semanas para completar 25.
Eu havia estudado apenas um ano de inglês americano e sabia muito pouco. O suficiente para imaginar que conseguiria me virar, mas não para compreender o que realmente me esperava do outro lado do oceano.
Meu voo vinha de Bruxelas e estava cheio de homens de negócios impecavelmente vestidos. Todos usavam ternos escuros, sapatos elegantes e carregavam pastas de trabalho.
No meio deles estava eu: jaqueta jeans, calças rasgadas, uma mochila preta e uma mala de 23 quilos. Minha aparência me transformou em um alvo fácil para os agentes da imigração.
Fui retirado da fila.
Minha própria versão de O Terminal
Um policial começou a me fazer perguntas que eu mal compreendia. Tentava responder, mas não encontrava as palavras. Abriram minha mala, revistaram todos os meus pertences e continuaram me interrogando enquanto eu tentava adivinhar o que queriam saber.
Muitos anos depois, ao ver Tom Hanks preso em um aeroporto em O Terminal, reconheci algo de mim mesmo naquele personagem.
Por fim, me deixaram passar.
Ninguém me esperava. Eu não tinha um quarto reservado nem um endereço anotado. Levava comigo apenas a bagagem, algum dinheiro e a vontade de conhecer uma terra diferente.
E o que eu sabia sobre a Inglaterra?
Que era a terra dos Beatles, dos Rolling Stones, dos Sex Pistols e da rainha Elizabeth II. Pouco mais.
Qualquer caminho pode servir
Peguei a Piccadilly line, a linha azul do metrô. Olhava os nomes das estações sem saber o que significavam nem aonde me levariam. Troquei de linha em Earl’s Court e acabei descendo em Ravenscourt Park.
Não sabia se aquele era o lugar certo, mas também não tinha um destino específico. Sentia-me como Alice no País das Maravilhas quando pergunta ao Gato de Cheshire qual caminho deve seguir. Se alguém não sabe aonde quer chegar, qualquer caminho pode servir.
E eu estava completamente perdido.
Talvez me perder fosse, justamente, a única maneira de começar a descobrir alguma coisa.
Um casaco que já conhecia Londres
A cidade me recebeu com um céu cinzento e uma garoa fina. Eu usava um casaco velho que o pai de um amigo havia me dado. Aquele homem tinha morado em Londres e trabalhado como porteiro em um hotel de luxo no centro da cidade.
Ironicamente, o casaco já conhecia o ar e o clima londrinos. Eu, por outro lado, era um jovem que mal sabia onde estava se metendo.
Caminhei até encontrar um prédio que parecia um albergue e decidi entrar.
Na recepção havia um jovem negro com duas marcas na bochecha. Ele começou a falar comigo, mas eu não conseguia acompanhar o que dizia. Foi então que realmente compreendi que estava do outro lado do mundo.
As imagens da minha juventude surgiram de repente: minha família, meus amigos e os lugares que faziam parte da minha vida. Enquanto o recepcionista esperava uma resposta, uma pergunta atravessou minha mente:
O que estou fazendo aqui?
Procurei desesperadamente alguma palavra em inglês e só encontrei uma:
—Room.
Mil dólares na cueca
O recepcionista entendeu e tentou me explicar o preço. Acho que eram cerca de 175 libras por uma semana, com café da manhã incluído.
Talvez fosse uma tarifa normal em Londres, mas para mim era uma fortuna. Cada libra gasta diminuía o tempo que eu poderia permanecer ali caso não encontrasse trabalho.
Como eu não entendia como deveria pagar, tirei diante dele os aproximadamente mil dólares que carregava escondidos na cueca. O homem reagiu com absoluta naturalidade e me explicou, com muita paciência, que não aceitavam dólares. Primeiro eu precisava trocá-los por libras.
Ele guardou minhas malas atrás do balcão.
Aquilo me deixou inquieto. Um brasileiro aprende desde muito cedo a não perder seus pertences de vista. O Brasil havia me ensinado assim. Saí do albergue, mas uma parte de mim ficou naquela recepção, vigiando mentalmente minha mochila e minha mala.
Minha primeira missão em inglês
O recepcionista tentou me explicar como chegar ao banco, mas eu quase não compreendi suas instruções. Tive de perguntar a umas cinco pessoas e caminhar na direção para a qual apontavam.
Era 1997. Não havia Google Maps, smartphones nem uma tela mostrando o caminho. Eu nem sequer tinha um mapa de Londres. Contava apenas com palavras incompreensíveis, alguns gestos e dedos apontando para alguma rua.
Encontrar o banco foi uma aventura. Trocar os dólares por libras foi outra.
Tive de me explicar com palavras soltas, movimentos das mãos e aquele inglês improvisado que eu havia levado comigo do Brasil. Não sei exatamente como consegui, mas a pessoa que me atendeu acabou me entendendo.
Saí com libras no bolso e a sensação de ter superado meu primeiro pequeno desafio na Inglaterra. Depois voltei rapidamente para o albergue.
Minhas malas continuavam lá.
Uma janela para Pink Floyd

O quarto era pequeno: uma cama de solteiro, um armário, uma pia, um espelho e uma grande janela branca. Havia carpete no chão e nos corredores. Tudo me pareceu antiquado e um pouco cafona. Junto à parede, um aquecedor permanecia ligado.
Senti calor e abri a janela.
Sob o céu cinzento erguiam-se prédios industriais e chaminés soltando fumaça. De repente, tive a sensação de ter entrado na capa de um disco do Pink Floyd.
Aquele disco havia sido um presente muito especial. Eu o recebi quando terminei o ensino fundamental como o melhor aluno da turma. Passava horas contemplando sua capa psicodélica enquanto ouvia as músicas e viajava com a imaginação.
Também tentava cantá-las acompanhando as letras, embora usasse um inglês completamente inventado por mim. Eu não entendia o que diziam, mas isso não me impedia de sentir a música. Muito antes de aprender o idioma, eu já brincava com seus sons e construía minha própria língua.
Agora, anos depois, a imagem que eu havia contemplado tantas vezes no Brasil parecia ter se materializado diante da janela de um albergue londrino. Era como a usina elétrica da capa de Animals: chaminés, fumaça e um céu profundamente cinzento.
Só faltava o porco voando entre as torres.
Talvez aquele menino que cantava em um inglês inventado já tivesse iniciado, sem saber, a viagem que me levaria até ali.
O fim de um dia interminável
O cansaço acabou me vencendo. Fechei a janela e o quarto ficou na penumbra. Não desfiz a mala nem me preparei para dormir. Tirei o casaco, joguei-o sobre o carpete e me deixei cair na cama.
Apostaria que aquele casaco já havia sentido antes o toque de um carpete londrino. Ao contrário de mim, ele já conhecia a cidade.
Caí em um sono profundo.
Quando acordei, durante alguns segundos não soube onde estava. Ainda era o mesmo dia, por volta da hora do almoço. No Brasil eram cinco horas a menos.
Permaneci imóvel, olhando para o teto, enquanto tentava organizar tudo o que havia acontecido.
Aquilo parecia um sonho.
No entanto, naquele pequeno quarto, com seu carpete cafona e uma janela que me transportava para as capas do Pink Floyd, compreendi que era verdade.
Eu estava em Londres.
A verdadeira reviravolta da minha vida
Durante as semanas seguintes, cada libra gasta me causaria a mesma inquietação. Para economizar, evitava pegar ônibus e percorria Londres a pé.
Caminhar não era apenas uma maneira de conhecer a cidade. Era também uma forma de ganhar tempo enquanto eu procurava meu lugar nela e, embora ainda não soubesse, meu lugar na vida.
Não fui a Londres para me tornar professor. Eu nem sequer sabia quem queria ser. Viajei por causa de uma aposta, movido pela curiosidade e pela necessidade de descobrir o que existia além do mundo que eu conhecia.
Aquele jovem de jaqueta jeans e calças rasgadas procurava respostas. Precisava provar a si mesmo que poderia sobreviver longe de casa, compreender outras culturas, aprender outro idioma e reconstruir-se em um lugar onde ninguém conhecia seu nome.
Londres não me ofereceu respostas imediatas. Primeiro me obrigou a caminhar, me perder, observar, escutar e enfrentar meus próprios limites.
Ensinou-me que sentir medo nem sempre significa que devemos voltar. Às vezes, significa apenas que estamos entrando em uma parte ainda desconhecida de nós mesmos.
Aquela viagem não iniciou uma profissão. Iniciou uma transformação.
Os seis meses se transformaram em quase três anos. A única palavra que consegui pronunciar ao chegar se transformou, com o tempo, em um novo idioma. E aquele idioma acabaria abrindo portas que, na manhã de 17 de abril de 1997, eu nem sequer sabia que existiam.
Ali, naquele quarto de albergue, começou a verdadeira reviravolta da minha vida.
God save the Queen!
Autor
dimyhatz@gmail.com